Dabbing e o BHO: entre a potência da cannabis e os riscos explosivos da produção amadora
Pesquisa científica alerta para os danos à saúde e à segurança causados por técnicas caseiras de extração com butano, mesmo em regiões onde a cannabis é legalizada
Explosões por BHO caseiro têm aumentado com a popularização do dabbing (Reprodução/Pexels) Um estudo aprofundado, intitulado “Butane hash oil and dabbing: insights into use, amateur production techniques, and potential harm mitigation”, lança luz sobre o crescente uso de concentrados de maconha, especialmente o óleo de haxixe com butano (BHO), conhecido como “dabbing”. Publicado em setembro de 2018 na revista científica Substance Abuse and Rehabilitation, da editora Dove Medical Press, especializada em saúde e ciências biomédicas, o estudo destaca que, embora o “dabbing” seja frequentemente retratado como uma nova tendência pela mídia popular, suas origens remontam aos anos 1960 nos Estados Unidos. No entanto, a popularidade atual se deve, em parte, à emergência da maconha medicinal e recreativa legalizada, que impulsionou o interesse por esses extratos de alta potência.
Os concentrados de maconha não são uma novidade. O estudo aponta que a extração de tetrahidrocanabinol (THC) em formas líquidas remonta aos anos 1960, com soldados no Vietnã utilizando solventes como acetona ou gasolina. No entanto, a popularidade atual do "dabbing" se intensificou com a legalização da maconha medicinal e recreativa em diversas regiões dos EUA, impulsionando um mercado que busca maior potência e formas de consumo alternativas. O BHO, em particular, pode atingir concentrações de THC que chegam a 50% em produtos amadores e ainda mais em versões comerciais, contrastando drasticamente com os 4% a 8% encontrados na flor de cannabis tradicional.
Fabricação Clandestina: Uma Bomba-Relógio em Casa
A metodologia de produção do BHO é um dos pontos mais críticos abordados pela pesquisa. Enquanto fabricantes comerciais em estados legalizados utilizam sistemas de "circuito fechado" — equipamentos sofisticados que reciclam o butano e minimizam a exposição —, a produção caseira opera em "circuito aberto". Isso significa que, durante o processo de purga (remoção do butano do concentrado), o gás inflamável é liberado no ambiente. Por ser mais pesado que o ar, o butano se acumula em espaços confinados, como garagens e galpões, e pode facilmente ser ignificado por uma faísca ou eletricidade estática, resultando em explosões devastadoras.
O estudo ressalta que esse perigo é "subestimado". Casos de queimaduras graves e explosões relacionadas à produção de BHO têm sido documentados, inclusive em locais onde o produto é legalizado e facilmente acessível. No Colorado, por exemplo, um estado pioneiro na legalização, houve um aumento preocupante nas queimaduras por hidrocarbonetos ligadas à fabricação amadora de BHO. A pesquisa alerta que a aspiração de usar partes menos nobres da planta, como o "trim", para obter um produto potente, motiva muitos a arriscar suas vidas em processos de extração perigosos e ilegais.
Equipamentos industriais reduzem riscos na produção de concentrados (Foto de Hyoung Chang/MediaNews Group/The Denver Post via Getty Images Embed)
Riscos à Saúde e Desinformação
Além do risco de incêndios e explosões, a inalação de BHO produzido de forma amadora pode expor os usuários a impurezas, como o butano não purgado, que podem causar danos cardíacos, insuficiência de órgãos e problemas respiratórios. Embora os usuários de BHO possam inalar menos butano do que aqueles que tentam se drogar apenas com o solvente, a quantidade não é desprezível e não deve ser ignorada. A inalação de solventes pode levar a problemas crônicos como cardiomiopatia, danos renais e hepáticos, e uma variedade de síndromes psiquiátricas. Produtos comerciais regulamentados, por outro lado, utilizam processos de circuito fechado que recuperam os solventes de forma mais eficaz, mitigando esses riscos.
O estudo também aponta para a desinformação generalizada sobre o "dabbing". A mídia impressa, em sua maioria, não aborda de forma aprofundada os riscos de incêndio associados à produção caseira. Além disso, vídeos de produção amadora no YouTube frequentemente minimizam ou ignoram os perigos de incêndio, a contaminação do produto final e a ilegalidade da prática. Narradores chegam a fazer piadas sobre explosões, e raramente mencionam a presença de solventes residuais ou pesticidas, que foram encontrados em mais de 80% das amostras analisadas em outro estudo.
Desafios e Caminhos para a Redução de Danos
O estudo conclui que, apesar das graves consequências, a produção caseira de BHO parece estar em ascensão, impulsionada pela curiosidade, pela percepção de facilidade na produção e pela busca por ganhos financeiros. Contudo, há uma carência notável de literatura detalhada para que pesquisadores e profissionais possam formular respostas eficazes a essa questão. A "falta de consciência de risco" é um problema particular para os primeiros socorros, que muitas vezes não conseguem reconhecer um laboratório de BHO e mitigar os perigos.
Para combater essa lacuna de conhecimento e os perigos inerentes, a pesquisa enfatiza a necessidade urgente de campanhas de saúde pública focadas na redução de danos. Recomenda-se que essas campanhas informem os potenciais produtores amadores sobre o perigo de incêndio, a importância da ventilação adequada e a conscientização sobre fontes de ignição. Incentivar a compra de produtos comercialmente produzidos em ambientes regulamentados (onde permitido) é outra estratégia vital.
A abordagem deve ser multifacetada, fornecendo treinamento para equipes de emergência reconhecerem indicadores de laboratórios de BHO e seus riscos associados, a fim de melhorar as respostas a incidentes e reduzir danos ao pessoal. Além disso, é crucial que as mensagens de segurança atinjam o público por meio dos mesmos canais que disseminam a desinformação, como o YouTube.
A pesquisa sugere que grupos de entusiastas da maconha e publicações especializadas podem desempenhar um papel fundamental na disseminação de informações precisas e no alerta sobre os perigos da fabricação amadora. Embora o debate sobre a regulamentação da cannabis continue a evoluir, a prioridade deve ser a segurança, garantindo que a busca por concentrados de maconha não resulte em tragédias evitáveis.






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