Cultivar cannabis sem fase vegetativa? Artigo de Jorge Cervantes gera forte debate entre growers
Especialista afirma que método “No-Veg” pode aumentar a produção anual e reduzir custos no cultivo, mas proposta divide especialistas do setor
Por Gabiiweed
05/03/2026 - 16h40
Renomado horticultor e ativista norte-americano Jorge Cervantes | Reprodução/Instagram/@jorgecervantesmj Um artigo publicado em 2 de março pela revista americana High Times provocou intenso debate no cenário internacional da cannabis. O texto é assinado pelo lendário cultivador Jorge Cervantes, conhecido mundialmente por seus livros e manuais de cultivo utilizados tanto por produtores domésticos quanto por grandes operações comerciais. A publicação reacendeu discussões sobre novas técnicas de cultivo de cannabis e possíveis mudanças no modelo tradicional de produção da planta.
Na publicação, Cervantes apresenta uma teoria que desafia uma das práticas mais consolidadas da horticultura canábica: a necessidade da fase vegetativa no cultivo de cannabis antes do início da floração. Segundo ele, dados recentes obtidos em pesquisas realizadas na Europa indicam que essa etapa pode ser eliminada sem comprometer a produtividade do cultivo. A proposta sugere que o cultivo de cannabis pode ocorrer de forma mais rápida e eficiente ao reduzir etapas tradicionais do ciclo da planta.
A proposta tem causado repercussão porque a fase vegetativa sempre foi considerada uma regra fundamental no cultivo da cannabis. É nesse período que as plantas crescem, desenvolvem raízes e formam a estrutura que sustentará a produção de flores posteriormente. Para muitos cultivadores, essa etapa é responsável por garantir estabilidade, vigor e produtividade nas colheitas.
O método “No-Veg” e a mudança no ciclo de cultivo
A técnica apresentada no artigo foi chamada de “No-Veg”, método de cultivo de cannabis sem fase vegetativa. A estratégia propõe que clones enraizados ou sementes germinadas sejam colocados diretamente sob um ciclo de luz de 12 horas de iluminação e 12 horas de escuridão desde o primeiro dia, regime normalmente utilizado para induzir a floração da cannabis. Essa abordagem altera completamente o ciclo tradicional de desenvolvimento da planta.
Tradicionalmente, cultivadores mantêm as plantas sob ciclos de luz prolongados, geralmente entre 18 e 24 horas de iluminação diária, por algumas semanas antes de iniciar a floração. Esse período permite que as plantas cresçam e aumentem sua biomassa, o que teoricamente resultaria em colheitas maiores. Esse modelo se consolidou como padrão no cultivo indoor de cannabis ao longo das últimas décadas.

O método se baseia no “stretch”, período de crescimento rápido da cannabis no início da floração (Foto: Reprodução/My Seeds DE/Pexels)
No modelo defendido por Cervantes, entretanto, o crescimento inicial ocorre durante o próprio processo de transição para a floração. A ideia é aproveitar o chamado “stretch”, um fenômeno natural de crescimento acelerado que ocorre quando a cannabis entra na fase de floração. Segundo o autor, esse processo pode substituir parcialmente o crescimento vegetativo tradicional.
Pesquisa europeia e dados que sustentam a proposta
O artigo cita testes conduzidos por um consórcio de empresas de pesquisa agrícola e tecnologia de cultivo, incluindo a companhia holandesa Innexo, além das empresas Fluence e Grodan. Os experimentos analisaram ciclos completos de cultivo em ambientes controlados para avaliar a eficiência da técnica. Os testes fazem parte de estudos recentes sobre inovação no cultivo de cannabis em ambientes indoor.
De acordo com os resultados apresentados, a produção por colheita individual tende a ser menor quando comparada ao método tradicional. No entanto, como o ciclo de cultivo se torna mais curto, os produtores poderiam realizar mais colheitas ao longo do ano. Isso significa que o rendimento anual da produção de cannabis poderia aumentar mesmo com plantas menores.
Segundo os dados divulgados no estudo, operações comerciais poderiam passar de quatro para seis ciclos anuais de cultivo. Com isso, a produção total ao longo de um ano aumentaria, mesmo com plantas menores em cada colheita. A estratégia busca otimizar a produtividade anual em cultivos comerciais de cannabis.
Eficiência energética e redução de custos
Outro argumento central apresentado no artigo envolve a eficiência energética no cultivo de cannabis indoor. A fase vegetativa exige ciclos de luz mais longos e, consequentemente, maior consumo de eletricidade em instalações controladas. Em grandes operações, esse fator representa uma parcela significativa dos custos de produção.
Ao eliminar esse período, o consumo energético do cultivo poderia ser reduzido de forma significativa, principalmente em instalações comerciais que operam com centenas de luminárias. A técnica também pode reduzir custos operacionais no cultivo profissional de cannabis, segundo os pesquisadores envolvidos nos testes.

A técnica surge como alternativa para tornar o cultivo profissional de cannabis mais econômico (Foto: Reprodução/Priscila Dramisio/Pexels)
Para Cervantes, o modelo tradicional pode estar associado a práticas que surgiram em contextos tecnológicos mais antigos. Segundo ele, novas tecnologias de iluminação, irrigação e controle climático permitem repensar estratégias clássicas da horticultura canábica. O avanço da agricultura de precisão tem impulsionado mudanças em diferentes culturas agrícolas.
A reação da comunidade de cultivadores
Apesar dos números apresentados, a técnica de cultivo de cannabis sem fase vegetativa gerou forte debate entre cultivadores experientes. Muitos produtores argumentam que o crescimento vegetativo continua sendo essencial para desenvolver uma estrutura robusta de planta e garantir estabilidade no cultivo.
Críticos da técnica afirmam que o método pode funcionar apenas em ambientes altamente controlados e com grande nível de precisão no manejo de irrigação, nutrientes e clima. Qualquer erro nas primeiras semanas do cultivo poderia comprometer todo o ciclo da produção de cannabis, segundo especialistas do setor.
Outro ponto levantado na discussão é que o método exige um número maior de plantas por metro quadrado para atingir os resultados descritos. Em locais onde a legislação limita o número de plantas cultivadas, essa estratégia poderia se tornar inviável. Esse fator pode dificultar a adoção da técnica em alguns mercados regulados.
Um debate sobre o futuro do cultivo
Mesmo diante das críticas, Cervantes afirma que o setor global da cannabis está passando por uma transformação tecnológica semelhante à de outras culturas agrícolas que migraram de práticas tradicionais para modelos altamente tecnificados. Para ele, o futuro do cultivo será cada vez mais guiado por dados, eficiência energética e otimização da produção.
No artigo, o autor argumenta que técnicas como o “No-Veg” podem representar uma nova etapa na profissionalização da indústria da cannabis. O método busca aumentar a eficiência da produção de cannabis em cultivos comerciais, especialmente em mercados competitivos onde a redução de custos se tornou essencial.
A publicação reacendeu um debate clássico dentro da comunidade de cultivadores: até que ponto práticas consideradas fundamentais podem ser repensadas à luz de novas pesquisas e tecnologias. A discussão sobre o fim da fase vegetativa no cultivo de cannabis deve continuar movimentando o setor nos próximos anos.




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