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,24/03/2026

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    “No-Veg”: revolução no cultivo ou marketing reciclado? Especialista brasileiro contesta nova tendência

    Com mais de 20 anos de experiência e responsável pelo primeiro cultivo autorizado do Brasil, o professor Sergio Vidal analisa, com exclusividade ao Gabiiweed.com, a técnica “No-Veg” e questiona se a “novidade” não passa de releitura de práticas antigas


     “No-Veg”: revolução no cultivo ou marketing reciclado? Especialista brasileiro contesta nova tendência Professor Sergio Vidal | Reprodução/Redes Sociais

    Em meio ao debate internacional sobre o método “No-Veg”, que propõe eliminar a fase vegetativa no cultivo de cannabis, o professor Sergio Vidal, um dos maiores especialistas do Brasil, com mais de 20 anos de experiência e responsável pelo primeiro cultivo autorizado do país, apresenta, com exclusividade ao Gabiiweed.com, uma análise crítica que questiona se a técnica representa, de fato, uma inovação agronômica ou apenas a reembalagem de práticas já conhecidas por cultivadores experientes. Confira a análise completa a seguir.


    “No-veg”: inovação técnica real ou reinvenção da roda?

    A banalização do “reframing” na indústria da cannabis

    Por Sergio Vidal*


    Todo mercado vive de novidades, assim funciona o capitalismo de consumo. No mercado da maconha não seria diferente. Ainda que a planta seja milenar e ela tenha mudado muito pouco, de tempos em tempos surge uma “nova revolução” no cultivo de cannabis. Um método disruptivo. Uma técnica que promete mudar tudo. Uma abordagem que, segundo seus divulgadores, inaugura uma nova era de mais produção e vai ditar como todos deverão cultivar a partir desse ponto. Será mesmo? 


    A mais recente da vez atende pelo nome elegante de “no-veg cultivation” foi apresentado pelo renomado autor Jorge Cervantes, num artigo na maior revista de maconha do mundo, a High Times Magazine. 


    O conceito parece impressionante quando lemos : eliminar a fase vegetativa da planta e colocá-la diretamente em floração. Plantas menores, ciclos mais rápidos, mais colheitas por ano. Eficiência. Otimização. Ciência aplicada.


    Mas para muito(a)s cultivadore(a)s experientes, a reação é outra:


    “Ué… isso não é só o velho 12/12 desde a semente ou o SOG?”


    De fato, quem frequentava sites fóruns de cultivo nas décadas de 1990 e 2000, ou até mesmo já leu um dos livros do próprio Cervantes, certamente lembra dessa prática. Era uma variação dentro do conhecido “Sea of Green (SOG)”: muitas plantas pequenas, crescimento mínimo e floração imediata para acelerar ciclos e padronizar qualidade das colheitas. Muito(a)s cultivadore(a)s também sempre usaram o 12/12 desde a semente para forçar plantas com genéticas muito altas a crescerem menos.


    Nada disso é exatamente revolucionário, nem novo.


    O que mudou agora não é necessariamente a técnica — mas a forma de narrá-la.


    A arte de reinventar o que já existe


    O fenômeno não é exclusivo da indústria da cannabis. Em diversos setores, práticas antigas são re-embaladas com nova terminologia, novos designs e um nome mais sofisticado. Isso costuma ser chamado de “reframing”: reposicionar algo já conhecido sob uma nova lente conceitual. Atingir novos públicos com as mesmas idéias, ou reconectar-se com um público que já conhece as idéias, dando-lhe uma cara nova.


    No caso do “No VEG”, o resultado foi um produto discursivo que soa inovador, mesmo quando suas bases são familiares para quem cultiva há décadas. Nada de errado com isso, inovação também acontece na forma de organizar conhecimento. O problema surge quando o marketing passa a vender, “novidade absoluta” onde existe apenas “reorganização conceitual”.


    E a indústria da cannabis, jovem e ainda em expansão, tornou-se terreno fértil para esse tipo de operação narrativa.


    O “no-veg” não é o único exemplo.


    Observe ao redor e você perceberá um curioso fenômeno econômico: objetos comuns, ao entrarem no universo da cannabis, passam por um tipo de “batismo simbólico” — e também por uma notável valorização de preço.


    Tesouras de costura tornam-se “tesouras de poda premium para cannabis”;


    Equipamentos usados na colheita de lúpulo — planta prima distante da cannabis — ressurgem como “máquinas especializadas de manicure de flores”;


    Exausores industriais viram “sistemas avançados de circulação de ar para cultivo indoor”;


    Lâmpadas LED comuns transformam-se em “iluminação espectral avançada para horticultura canábica”


    Óleo de maconha que passa a ser feito com óleo de milho ao invés de óleo de azeitona, e por isso passa a ser chamado por associações como “Óleo Gold Premium”, só por que o óleo de milho é dourado e claro, ao contrário do de oliva;


    Eu mesmo, ao trabalhar como gerente de uma rede de HeadShops no passado, vi o proprietário comprando formas de silicone para cupcakes e vendendo-as por 10x o preço do supermercado, como sendo “cuias de silicone antiaderente para misturar tabaco com haxixe”.


    Nada disso é necessariamente inútil. Muitos desses equipamentos funcionam bem e têm aplicações legítimas. Mas também é evidente que existe um processo de “reframing” constante, em que produtos já existentes ganham nova identidade e, não raramente, preços consideravelmente mais altos.


    O preço cultural da ilegalidade


    Parte dessa dinâmica tem raízes históricas. Durante décadas, a cannabis foi um produto ilegal. Ela ainda é ilegal na maioria dos países e seu acesso é extremamente restrito e caro. Isso criou um mercado onde o preço elevado era normal — não apenas pela dificuldade de produção, mas pelo risco envolvido. Mesmo num cenário de maior tolerância cultural, esse imaginário econômico não desaparece imediatamente. Ele permanece como um tipo de “memória cultural do mercado”.


    Consumidores acostumados a pagar caro pela planta muitas vezes continuam dispostos a pagar caro por tudo que a cerca. O resultado é um ecossistema onde o simples pode facilmente tornar-se sofisticado.



    A inovação que o Equador sempre conheceu


    Há, porém, uma ironia ainda mais evidente nessa história.


    Se a grande novidade do momento é cultivar cannabis praticamente sem fase vegetativa — entrando em floração quase imediatamente — então talvez devêssemos olhar para um lugar onde isso acontece há muito tempo: A faixa do Equador, região de culturas onde se cultiva cannabis há incontáveis gerações.


    Nas regiões equatoriais, o fotoperíodo natural do planeta gira em torno de 12 horas de luz e 12 horas de escuridão durante o ano inteiro. Ou seja: um regime de luz permanentemente “12/12” ou de quase isso. Em termos práticos, isso significa que nessas regiões a cannabis cresce sem longas fases vegetativas como ocorre em latitudes mais altas, iniciando a floração com baixa estatura.


    Em outras palavras:


    O que hoje é apresentado como ““no-veg cultivation” em laboratórios high-tech já acontece há séculos — ou milênios — em sistemas agrícolas tradicionais. Boa parte das populações humanas que cultivaram cannabis ao longo da história vive exatamente nessas regiões tropicais: África equatorial, Sudeste Asiático, Índia, Caribe, América Central, norte da América do Sul. 


    Cultivos comunitários, variedades locais adaptadas ao clima, técnicas transmitidas oralmente entre gerações. A natureza já operava em modo “no-veg” muito antes de alguém decidir dar esse nome à coisa.


    A cannabis entre ciência, mercado e narrativa


    Nada disso significa que não existam avanços reais na agricultura da cannabis. Há pesquisas sérias acontecendo em genética, fisiologia vegetal, controle biológico de pragas, dentre outras áreas..


    Sensores, fertirrigação automatizada e controle do regime de luz, dentre outras inovações, ampliaram o nível de controle que cultivadore(a)s podem ter sobre suas plantas e suas produções.


    Mas entre a pesquisa científica legítima e o entusiasmo comercial existe um espaço fértil para algo muito humano: a vontade de contar histórias de inovação e, principalmente, de lucrar.


    Histórias vendem. Protocolos vendem. Métodos com nomes elegantes vendem.


    Talvez a ironia mais bonita de toda essa história seja que, no fundo, a cannabis continua sendo apenas isso:


    uma planta.


    Uma planta resistente, adaptável, cultivada por humanos há milênios. Uma planta que pode oferecer fibras, alimentos, medicamentos e também experiências sensoriais e culturais.


    Mas quando ela entra no circuito moderno do mercado global, algo curioso acontece.


    Tudo que a toca parece ganhar um brilho especial.


    Como no mito do rei Midas, aquilo que envolve a cannabis tende a se transformar em valor. Equipamentos, discursos, marcas, métodos, técnicas, TUDO.


    E nesse brilho dourado convivem duas forças muito diferentes.


    De um lado, o potencial real de uma planta que pode trazer benefícios à saúde, à agricultura, à cultura e a TODA humanidade.


    Do outro, a tentação permanente da avareza, que limita o alcance desses benefícios em nome da potencialização do lucro.


    Nessa disputa de forças, a cannabis segue seu caminho — silenciosa, verde e crescendo em direção a luz… 


    *Autor com mais de 20.000 livros vendidos. Especialista em produção, extração e padronização de cannabis e derivados para fins medicinais.




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