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Rio de Janeiro,12/05/2026

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    OPINIÃO: O cenário canábico brasileiro precisa parar de tratar denúncias como traição

    O medo de ser chamado de “X9” tem silenciado denúncias de violência, golpes e abusos dentro de uma comunidade que busca reconhecimento, legitimidade e respeito


    OPINIÃO: O cenário canábico brasileiro precisa parar de tratar denúncias como traição Imagem ilustrativa | Reprodução/Pexels

    O uso da maconha foi historicamente marginalizado, e a lógica do “gato e rato” entre usuários e Estado ainda se perpetua em muitos países, inclusive em alguns onde a cannabis já foi legalizada. Dessa marginalização nasceu uma espécie de “pacto” entre apreciadores da planta, marcado pela lealdade e pela proteção mútua. Nesse contexto, a expressão “X9”, gíria usada para definir dedo-duro, delator ou informante, passou a fazer parte da cultura canábica.

    O termo teria sido inspirado no personagem americano Secret Agent X-9, embora exista também a associação popular ao Pavilhão 9 do extinto presídio do Carandiru, onde presos considerados delatores eram hostilizados. Seja qual for sua origem, o “X9” se consolidou dentro da lógica do proibicionismo. Ser visto dessa forma significa carregar o peso de alguém que “entrega” os próprios parceiros.


    O debate, porém, se torna mais delicado quando esse pacto de lealdade deixa de existir apenas como mecanismo de proteção contra a perseguição estatal e passa a servir como escudo para delitos que nada têm relação com a política de drogas.


    Um dos exemplos mais graves dessa distorção aparece nos casos de violência contra mulheres dentro do cenário canábico brasileiro. Muitas vítimas deixam de denunciar seus agressores simplesmente porque eles possuem ligação com a cannabis.

    Em determinados círculos, o medo de ser rotulada como “X9” acaba se tornando mais forte do que a necessidade de denunciar a violência sofrida. O pacto de lealdade, criado historicamente como reação à perseguição do proibicionismo, passa então a ser distorcido e utilizado como cortina de fumaça para proteger homens acusados de violência.



    O mesmo fenômeno pode ser observado em casos de estelionato e golpes dentro do mercado canábico. Novamente, muitas vítimas preferem o silêncio por receio de serem vistas como delatoras. Esse cenário cria um ambiente extremamente favorável para a atuação de pessoas mal-intencionadas.

    Em alguns casos, a sensação de impunidade é tão evidente que determinados indivíduos enxergam no mercado canábico um espaço onde dificilmente serão denunciados, mesmo após prejudicarem pessoas honestas e de boa-fé.


    Esse é um debate profundo, necessário e muitas vezes evitado. O proibicionismo que historicamente atinge usuários de maconha e outras substâncias não pode ser usado como justificativa moral para acobertar crimes que não possuem qualquer ligação com a guerra às drogas.

    Um movimento que busca reconhecimento, legitimidade e validação social também precisa demonstrar maturidade, responsabilidade e compromisso ético diante da sociedade.


    Ser maconheiro nunca foi, e nunca deveria ser, sinônimo de desonestidade. Mas transformar qualquer denúncia em “deduragem” cria um ambiente onde vítimas se calam, agressores se fortalecem e golpistas encontram espaço para agir.


    Combater o proibicionismo não pode significar normalizar abusos ou silenciar crimes que nada têm relação com a política de drogas. Quando denúncias legítimas passam a ser tratadas como traição, o próprio movimento corre o risco de reforçar os estigmas que historicamente combate.


    Romper o silêncio diante de injustiças não é traição. Em muitos casos, é justamente o que protege a integridade da própria comunidade.




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