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Rio de Janeiro,01/05/2026

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    "Pacientes não são criminosos": casal preso por cultivar cannabis medicinal no Maranhão fala pela primeira vez após deixar a cadeia

    Em entrevista exclusiva ao Gabiiweed.com, Cristina Torres e Silas Soares relatam a prisão, os impactos na saúde, o processo judicial em curso e o projeto de lei que criaram para proteger pacientes medicinais


    Cristina Torres e Silas Soares | Reprodução/Acervo Pessoal

    Em dezembro de 2025, o nome da paciente  Cristina Torres virou notícia no Maranhão. Paciente autista nível 1, usuária de cannabis medicinal há quatro anos, ela foi presa em flagrante durante uma operação da Polícia Civil em sua residência, em Imperatriz, algemada, em crise, com febre alta e infecção urinária, transportada por horas dentro de um camburão fechado, sem ventilação. Ao seu lado, a receita médica. Os laudos. A carteirinha de paciente. Ignorados.

    O que viria a seguir transformaria o caso em um dos mais emblemáticos do debate sobre cannabis medicinal no Brasil: uma segunda prisão, desta vez preventiva, envolvendo também seu marido, o advogado Silas Soares, o único especialista em direito canábico da região. Acusações de ameaça e difamação sem provas concretas. Meses de custódia em São Luís, longe de casa, longe do filho, longe do tratamento. Um habeas corpus negado. E uma batalha jurídica que ainda não terminou.

    Após deixarem a prisão em abril, Cristina e Silas concedem sua primeira entrevista exclusiva ao Gabiiweed.com. Nesta conversa, eles detalham os bastidores da operação, os danos físicos e psicológicos sofridos, a disputa de narrativas com as autoridades, e o projeto de lei que nasceu dessa experiência: uma proposta voltada a garantir segurança jurídica a pacientes medicinais, com atenção especial a pessoas com Transtorno do Espectro Autista, impedindo que tenham seus tratamentos interrompidos ou sejam criminalizadas por cuidar da própria saúde.

    Antes de ler a entrevista, conheça as reportagens que cobriram o caso desde o início:

    “Fui algemada em crise”: o relato de uma paciente autista e cultivadora presa

    Caso envolvendo o primeiro HC para cultivo de cannabis em Imperatriz (MA) ganha novos capítulos

    GW: Cristina, você atualmente é paciente medicinal de cannabis. Poderia nos explicar como iniciou seu tratamento com a planta e quais condições ela trata?


    Cristina: Sou paciente de cannabis medicinal, fazendo tratamento há 4 anos e sou autista nível 1. Iniciei o tratamento após anos sem resposta adequada a medicamentos convencionais. A cannabis me auxilia na regulação emocional, no sono, nas crises sensoriais e na minha qualidade de vida. Antes disso, eu vivia em isolamento severo. Com o tratamento, eu estava conseguindo retomar minha rotina — o que foi interrompido após os acontecimentos.


    GW: Seu marido, Silas, que é advogado, quando decidiram buscar um habeas corpus para o cultivo autorizado de cannabis medicinal?


    Silas: Naquele momento, a decisão veio de uma necessidade concreta de saúde dentro da nossa própria família. Minha esposa passou a seguir um tratamento com cannabis medicinal, devidamente prescrito por psiquiatra após o diagnóstico de transtorno do espectro autista. Foi aí que nos deparamos com um problema muito comum no Brasil: o alto custo do tratamento dentro das vias legais, que muitas vezes acaba sendo inacessível para a maioria das famílias.


    Nós já éramos associados à APEPI, onde tivemos acesso a informação qualificada, além de cursos de cultivo e extração. Foi nesse ambiente que tomamos conhecimento da possibilidade jurídica de buscar um salvo-conduto por meio de habeas corpus para o cultivo doméstico com fins medicinais.


    A partir daí, passamos a estudar o tema com mais profundidade. E, no meu caso, como advogado, entendi que era necessário me especializar tecnicamente, inclusive ingressando em uma pós-graduação voltada à cannabis medicinal e ao Direito. Ou seja, não foi uma decisão precipitada — foi um caminho construído com base em necessidade médica, informação e preparo jurídico.


    GW: Em novembro de 2025, vocês passaram por problemas com os vizinhos do condomínio onde vivem. Como tudo começou e do que foram acusados?


    Cristina: Fomos denunciados por vizinhos por conta do cultivo medicinal doméstico. Esses mesmos vizinhos também me expuseram em grupos do condomínio, incentivando denúncias contra minhas redes sociais e parceiros, o que ampliou ainda mais o impacto da situação.


    Cultivo de cannabis apreendido.

    Cultivo para fins medicinais que o casal mantinha em sua residência em Imperatriz (MA) (Reprodução/PCMA)


    GW: Quais foram as consequências na sua saúde decorrentes da primeira prisão? Seus documentos foram ignorados?


    Cristina: Sim. Não fui reconhecida nem como paciente medicinal nem como pessoa autista. Meus documentos foram ignorados. Desenvolvi uma infecção urinária que se agravou, atingindo rins e vesícula, com indicação cirúrgica. Fui transportada por horas com febre alta, o que agravou ainda mais meu estado. Também tive regressão severa no meu quadro de autismo.


    GW: Vocês consideram que houve exposição midiática feita por autoridades?


    Cristina: Além disso, blogs locais e outros meios de comunicação também me expuseram de forma incorreta, sem que eu tivesse qualquer direito de resposta. A forma como as informações foram divulgadas não refletiu a realidade do que aconteceu. Até o momento, meu direito de resposta está sendo exercido exclusivamente pela via judicial. Esta é a primeira vez que um veículo me procura para ouvir minha versão dos fatos.


    Silas: Sim, entendemos que houve uma exposição midiática indevida, tanto por parte de autoridades quanto de páginas informais de notícias nas redes sociais. Em um dos casos mais graves, uma publicação chegou a utilizar a expressão “maconheira” de forma claramente pejorativa, associada à divulgação do nome e da imagem da minha esposa. Isso não apenas ultrapassa os limites da liberdade de informação, como também viola direitos fundamentais, como a dignidade da pessoa humana, a honra e a presunção de inocência.


    É importante destacar que estamos falando de uma situação envolvendo cultivo para fins estritamente medicinais, em contexto de tratamento de saúde. A forma como isso foi exposto ao público acabou criando uma narrativa distorcida e sensacionalista, que gera estigmatização e julgamento antecipado.


    Do ponto de vista jurídico, esse tipo de conduta pode ensejar responsabilização civil e até mesmo penal, justamente por extrapolar o dever de informar e avançar sobre direitos individuais. O que se espera, especialmente em casos sensíveis como esse, é responsabilidade na comunicação — algo que, infelizmente, não foi observado nesse episódio em Imperatriz.


    GW: Sobre os mandados posteriores por suposta difamação e outras acusações, o que podem dizer?


    Cristina: Fui presa dia 17 de dezembro e, após audiência de custódia, fui liberada. Uma semana depois, fui presa novamente, junto com meu marido, que era meu advogado e o único especialista em direito canábico na região (foi decretada prisão temporária para ambos), com base em alegações que não correspondem à minha conduta ou a dele.


    Eu não estava utilizando redes sociais e não fiz acusações contra terceiros. As alegações de AMEAÇA E DIFAMAÇÃO foram baseadas no suposto depoimento de uma interna do presídio de Carolina - MA, sem qualquer apresentação de provas, sendo inclusive alegado pela autora que meu marido e eu planejávamos contra a vida dela, o que seria impossível, pois estávamos presos em cidades distantes, sem possibilidade de comunicação.


    Silas: Na condição de advogado e também de um dos diretamente atingidos pelos fatos, preciso esclarecer que não houve qualquer prática de difamação. O que ocorreu foi que a própria autora das acusações se manifestou publicamente — inclusive em redes sociais e na televisão — enquanto eu e minha esposa estávamos sob prisão temporária, ou seja, sem qualquer possibilidade de nos defender ou apresentar nossa versão dos fatos naquele momento.


    Além disso, há um ponto juridicamente relevante: o boletim de ocorrência e a ação foram registrados em comarca diversa de Imperatriz, onde todos nós residimos. Isso levanta questionamentos legítimos sobre a competência e sobre a motivação dessa escolha.


    O aspecto mais preocupante é que, após esse novo movimento, houve a conversão da nossa prisão temporária em preventiva. A leitura que fazemos é que isso acabou sendo utilizado como fundamento para manter nossa privação de liberdade, o que, na nossa visão, não encontra respaldo adequado nos requisitos legais da prisão preventiva.


    Seguimos confiando que, com a devida análise técnica e imparcial do Judiciário, ficará demonstrado que não houve crime contra a honra e que as medidas adotadas foram desproporcionais.


    Casal Cristina e Silas

    Silas Soares e Cristina Torres acabaram sendo presos em razão do cultivo para uso medicinal (Reprodução/Acervo Pessoal)


    GW: Existe também uma acusação de suposta ameaça a uma delegada. Por qual motivo essa acusação foi atribuída a você?


    Cristina: Eu não ameacei ninguém em nenhum momento. Não existe vídeo, gravação ou prova concreta. O que há é um relato atribuído a terceiros, registrado em outro município. Trata-se de uma acusação grave que precisa ser analisada com responsabilidade.


    GW: Quais os danos físicos e psicológicos após esses meses traumáticos?

    Cristina: Os danos foram profundos. Tive agravamento de saúde física, regressão no autismo, crises intensas e impacto emocional severo. Cheguei a fazer uso excessivo de medicação para conseguir dormir. Ainda estou em recuperação e enfrento limitações significativas.


    GW: Sobre o projeto de lei que criaram: qual a finalidade?

    Cristina: De forma resumida, esse projeto busca garantir maior segurança jurídica para pacientes que utilizam cannabis medicinal, com atenção especial a pessoas com transtorno do espectro autista e que, eventualmente, estejam em situação de custódia do Estado. A proposta tenta evitar que pacientes sejam criminalizados ou tenham seus tratamentos interrompidos em contextos sensíveis, assegurando continuidade terapêutica e respeito aos seus direitos fundamentais.


    É uma iniciativa que nasce de uma vivência real e que pretende justamente preencher lacunas legais, trazendo mais clareza e proteção tanto para pacientes quanto para suas famílias.

    GW: Qual é a visão de vocês sobre o cultivo de cannabis no Maranhão?


    Silas: Do ponto de vista jurídico, é importante reconhecer que o Maranhão ainda se encontra em uma fase mais inicial nesse debate, especialmente quando comparado a estados como a Paraíba e Pernambuco. Aqui no Maranhão, o cultivo de cannabis para fins medicinais ainda é tratado de forma mais cautelosa, com pouca estrutura associativa consolidada e uma dependência maior de decisões judiciais individuais — geralmente por meio de habeas corpus para pacientes específicos. Isso revela um ambiente de maior insegurança jurídica e menor amadurecimento institucional sobre o tema.


    Por outro lado, quando olhamos para a Paraíba, vemos um cenário bastante avançado, com associações organizadas, decisões judiciais coletivas e um reconhecimento mais amplo do direito ao cultivo para fins terapêuticos. Pernambuco segue uma linha semelhante, mas com um diferencial importante: um diálogo mais aberto entre sociedade civil, Judiciário e Legislativo, o que contribui para a construção de políticas públicas mais estruturadas.


    Então, em termos comparativos, eu diria que o Maranhão ainda está dando os primeiros passos, enquanto Paraíba e Pernambuco já vivem um estágio de maior consolidação — tanto do ponto de vista jurídico quanto institucional. Isso não significa que o Maranhão esteja parado, mas sim que há um campo significativo para evolução, especialmente no fortalecimento de associações e na ampliação do debate público e legislativo sobre o tema.


    Casa do casal no maranhão

    Operação que teve como alvo a residência do casal (Reprodução/PCMA)


    GW: Gostariam de deixar um recado final?

    Cristina: Pacientes não são criminosos. Eu sou autista, paciente medicinal, formada em Direito e estudante da área da saúde. Nunca vendi nada, nunca incentivei ninguém a usar cannabis. O que eu compartilhava nas redes era um diário do meu tratamento, com foco em informação e responsabilidade.


    Não havia droga pronta para uso na minha residência — isso consta no próprio inquérito. As plantas estavam em desenvolvimento, e os óleos que eu utilizava eram provenientes de associação e também importados com autorização regular.

    Durante a abordagem, houve uma situação extremamente traumática para mim e para minha família. Meus pais e meu filho estavam presentes, e todos foram impactados psicologicamente.


    Hoje, estou impedida de acessar redes sociais e até de entrar no local onde vivia, sem acesso aos meus próprios pertences. Perdi renda, parcerias e autonomia. Até o momento, não foram apresentadas provas concretas contra mim — apenas registros unilaterais que precisam ser devidamente analisados. O que vivemos precisa ser tratado com responsabilidade. Estamos falando de saúde, dignidade e direitos humanos.


    Silas: Como mensagem final, eu destacaria que esse caso vai muito além de uma situação individual. Ele evidencia a urgência de um debate mais sério, técnico e humanizado sobre o uso da cannabis para fins medicinais no Brasil.

    Estamos falando de saúde, de qualidade de vida e de acesso a tratamento. Quando famílias recorrem ao cultivo doméstico, na maioria das vezes não é por escolha ideológica, mas por necessidade — diante de custos elevados e da falta de alternativas acessíveis.

    Também é fundamental que se respeitem as garantias constitucionais, como o direito à dignidade, à saúde e à ampla defesa, evitando exposições indevidas e medidas desproporcionais.

    A nossa expectativa é que casos como esse contribuam para amadurecer o entendimento do Judiciário e da sociedade, para que outras pessoas não precisem passar pelas mesmas dificuldades. O caminho precisa ser o da informação, da responsabilidade e, sobretudo, da justiça. CHEGA DE FAKE NEWS!

    Conheça a ideia legislativa apresentada pelo casal para proteger pacientes medicinais, especialmente pessoas com Transtorno do Espectro Autista. A proposta precisa alcançar 20 mil assinaturas para tramitar oficialmente no Senado.

    (CLIQUE) Ideia Legislativa - Diretrizes de proteção a autistas e continuidade terapêutica em custódia estatal :: Portal e-Cidadania - Senado Federal




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