Marcha da Maconha tem público 88% menor que o esperado em São Paulo, aponta USP
Organizadores esperavam 60 mil pessoas na Paulista, mas levantamento da USP/CEBRAP registrou apenas 7,4 mil participantes no pico do ato
Tradicional ato na Avenida Paulista registrou público abaixo da expectativa | Reprodução/Paulo Pinto/Agência Brasil A 18ª edição da Marcha da Maconha, realizada no domingo (21) em São Paulo, registrou um abismo entre expectativa e realidade. Rafael Presto, um dos organizadores principais do movimento, esperava reunir cerca de 60 mil participantes na Avenida Paulista, números similares aos registrados em edições anteriores, conforme declarou em entrevista. O que efetivamente aconteceu foi radicalmente diferente: apenas 7,4 mil pessoas foram contabilizadas no horário de pico, segundo medição do Monitor do Debate Político USP/CEBRAP em parceria com a ONG More in Common.
Medição técnica revela disparidade
A contagem não foi estimativa visual ou aproximação jornalística convencional. O Monitor do Debate Político USP/CEBRAP utilizou metodologia rigorosa baseada em inteligência artificial. Pesquisadores capturaram fotos aéreas em sete horários diferentes ao longo da manifestação (14h20, 14h40, 15h, 15h20, 16h, 16h30 e 16h45) e selecionaram sete fotografias tiradas às 16h que cobriam toda extensão do ato na Paulista sem sobreposição. Um software analisava automaticamente as imagens para identificar e marcar cada participante individual, eliminando subjetividade. A margem de erro de 12% indica que havia entre 6,5 mil e 8,3 mil manifestantes no momento de maior concentração.
A expectativa dos organizadores, 60 mil pessoas, baseava-se em padrão de edições anteriores. Conforme relatou Presto, "a marcha tem um público muito grande todo ano. Ano passado devia ter umas 60.000 pessoas", sugerindo estabilidade histórica na mobilização. Porém, os dados técnicos da USP/CEBRAP demonstram uma realidade completamente distinta: queda de aproximadamente 88% entre o público esperado e o efetivamente medido.
O vazio na rua
Este divórcio entre convocação e presença revela dinâmica preocupante para o movimento. A mudança de data para domingo, implementada desde 2024 especificamente para ampliar acessibilidade, com a Avenida Paulista fechada para pedestres e tarifa zero no transporte público, não conseguiu sustentar a mobilização. Segundo reportagens da época, a 16ª edição (2024) havia reunido "dezenas de milhares" naquele primeiro domingo. Dois anos depois, sob as mesmas condições logísticas, o movimento perdeu aproximadamente sete de cada dez participantes.
A Marcha mantém suas pautas históricas, legalização de uso recreativo e acesso simplificado a cannabis medicinal, e incorporou desde 2024 debates sobre antirracismo, antifascismo e reparação racial. Conforme manifesto divulgado nas redes sociais, o movimento se apresenta como "um movimento autônomo, antirracista e antifascista" contra a "guerra às drogas". Contudo, a expansão retórica de pautas não se traduziu em expansão de presença física na rua.
O esvaziamento ocorre em contexto de dinâmica legislativa contraditória. O STF finalizou em junho de 2024 o julgamento que descriminalizou o porte de maconha para uso pessoal, definindo 40 gramas como limite para usuários, decisão reafirmada em fevereiro de 2025 por maioria dos ministros. Em resposta conservadora, a PEC 45/2023 foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara em junho de 2024, com objetivo de criminalizar constitucionalmente a posse de qualquer quantidade de droga. Porém, desde então, a comissão especial que deveria analisar a proposta permanece paralisada há um ano, com diversos partidos segurando indicações de membros.
Simultaneamente, outras agendas progressistas fragmentaram a base ativista em múltiplas frentes concorrentes. Quando expectativa e realidade divergem em 88%, os números revelam erosão profunda da capacidade mobilizadora de um movimento que há 18 anos ocupa a Paulista.





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