Juliana Souza: “O futuro do mercado canábico só faz sentido se construído de forma diversa e inclusiva”
Em entrevista exclusiva ao Gabiiweed.com, fundadora da ExpoManas fala sobre desafios, conquistas e a força das redes de apoio femininas no setor da cannabis.
Juliana defende inclusão e protagonismo de mulheres no setor canábico | Reprodução/Instagram/@babadohemp A ExpoManas não é apenas uma feira: é um movimento itinerante que percorre o Brasil, conectando mulheres, fortalecendo redes de apoio e promovendo reparação histórica no mercado canábico. Criada em 2023, a iniciativa nasceu da inquietação de Juliana Souza, mais conhecida como “Juju da ExpoManas”, que transformou sua vivência como hempreendedora em um projeto coletivo de sororidade e protagonismo feminino.
Nesta entrevista exclusiva ao Gabiiweed.com, Juliana fala sobre os desafios de ser mulher no mercado da cannabis, a importância da educação para quebrar estigmas e os próximos passos da ExpoManas no Brasil e no mundo.
GW: Juliana, como nasceu a ideia da ExpoManas em 2023 e qual foi o momento em que você percebeu que era necessário criar um evento itinerante voltado exclusivamente para mulheres no mercado canábico?
Juju: A ideia nasceu a partir de uma inquietação muito pessoal e, ao mesmo tempo, coletiva. Percebi que as mulheridades estavam cada vez mais presentes na cena, mas ainda invisibilizadas, sem um espaço próprio, quando a maioria das pessoas que movimentavam o mercado eram homens. A inspiração veio do desejo de romper isso e de criar um ambiente seguro, onde as vozes femininas pudessem ser protagonistas.
GW: O mercado da cannabis ainda é marcado pelo machismo. Quais foram as situações mais desafiadoras que você enfrentou como mulher empreendedora e como a ExpoManas atua para romper essas barreiras?
Juju: O mercado canábico, assim como muitos outros, ainda é muito marcado pelo machismo. Já enfrentei situações em que meu trabalho foi subestimado, em que precisei falar com mais postura ou justificar meu espaço de uma forma que os homens não precisariam. Basicamente, o reconhecimento só vem depois de provar resultados, enquanto colegas homens são legitimados de partida. A ExpoManas atua justamente para romper essa lógica, dando visibilidade e legitimidade às mulheres desde o início.
GW: Mesmo sendo um evento inovador e relevante, a ExpoManas ainda enfrenta resistência de investidores. Por que você acredita que o mercado demora a apoiar iniciativas lideradas por mulheres e como tem buscado alternativas de financiamento?
Juju: Ainda existe uma cultura que associa liderança, inovação e negócios de impacto a figuras masculinas. Isso faz com que muitos hesitem em apostar em projetos femininos, mesmo quando eles demonstram relevância e resultados concretos. Estamos estruturando a ExpoManas de forma itinerante, com produções locais em cada estado, criando um padrão de organização e aprendizado prático. Essa rede de manas é parte essencial da construção.
GW: Você pode compartilhar algum caso inspirador de participante ou expositora cuja trajetória foi transformada após passar pela ExpoManas?
Juju: O que mais acontece são manas que chegam emocionadas, dizendo que finalmente não se sentem mais sozinhas. Muitas acreditavam que estavam “loucas” por querer empreender na cannabis sem apoio. Hoje, veem que existe uma rede. Temos histórias de colaborações, fusões de marcas, novos negócios e conexões que mudaram vidas.
Juju defende a reparação histórica e a inclusão de mulheres negras, indígenas e periféricas no empreendedorismo da cannabis (Foto: Reproducão/Instagram/@babadohemp)
GW: O evento tem como pilar a inclusão de mulheres negras, indígenas e periféricas. Como essa reparação histórica se traduz, na prática, nas edições da feira?
Juju: A reparação histórica é um dos pilares da ExpoManas e não fica só no discurso. Eu mesma, sendo uma mulher negra, transmito firmeza para que outras se sintam seguras em se achegar. Garantimos que mulheres negras, indígenas e periféricas tenham protagonismo real, seja como expositoras, palestrantes, artistas ou embaixadoras. Descentralizamos os eventos, levamos a ExpoManas para diferentes territórios e valorizamos saberes ancestrais. Não é ocupar espaço: é ser reconhecida como referência.
GW: Em um país onde a cannabis ainda é alvo de estigma, qual é o papel da educação dentro da ExpoManas para desconstruir preconceitos e abrir portas para novas hempreendedoras?
Juju: A educação é a base de tudo. Criamos rodas de conversa, oficinas e vivências práticas para mostrar que a planta não é apenas símbolo de criminalização, mas também oportunidade de cuidado, geração de renda e transformação social.
GW: A ExpoManas se define como uma rede de sororidade. Na sua visão, qual é a importância de criar conexões entre mulheres para fortalecer negócios em um setor ainda em expansão?
Juju: Sozinhas podemos caminhar, mas juntas conseguimos transformar. No mercado canábico, que ainda é novo e desafiador, as conexões entre mulheres fortalecem negócios e abrem caminhos que individualmente seriam muito mais difíceis. Quando uma mana apoia a outra, rompemos a lógica da concorrência.
GW: O mercado canábico brasileiro cresce, mas a regulamentação avança lentamente. Como você enxerga o impacto de uma eventual legalização mais ampla para mulheres que querem empreender nesse setor?
Juju: Uma regulamentação mais ampla teria impacto profundo. Permitiria que muitas mulheres que hoje atuam na informalidade se legalizassem, crescessem e protegessem seus negócios. Mas a legalização não é só sobre mercado, é também sobre justiça social e reparação histórica. Com regras claras, conseguimos incluir mulheres negras, trans, indígenas e periféricas que foram mais atingidas pelo proibicionismo.
Primeira edição da ExpoManas ocorreu em 2023 (Foto: Reprodução/Instagram/@babadohemp)
GW: Quais são os próximos passos da ExpoManas? Há planos de internacionalização, novas cidades ou novos formatos de evento?
Juju: Estamos em expansão, com embaixadoras à frente das exposições em suas cidades. Para 2026, queremos chegar a capitais importantes onde ainda não conseguimos estar. A internacionalização também está nos planos, mas sem data definida. Nosso futuro é seguir passo a passo, enraizando a ExpoManas e crescendo com compromisso e autenticidade.
GW: Para as mulheres que sonham em entrar no mercado canábico, mas ainda sentem medo ou insegurança, que conselho você daria para que elas deem o primeiro passo?
Juju: Não caminhem sozinhas. O medo é natural em um mercado ainda estigmatizado, mas é por isso que criamos redes como a ExpoManas. Busquem informação, comecem com produtos regulamentados e estejam em movimento. Cada passo, por menor que pareça, já constrói o caminho e traz transformação.
A ExpoManas segue como um dos maiores exemplos de protagonismo feminino no mercado canábico brasileiro, promovendo inclusão, educação e redes de apoio que fortalecem toda uma geração de hempreendedoras.





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