Do prensado aos concentrados: como o Paraguai entrou na rota das extrações de cannabis
Apreensões da SENAD em 2025 revelam laboratórios, técnicas industriais com uso de butano e uma nova dinâmica do comércio de resinas no Brasil
Paraguai avança da maconha prensada aos concentrados de cannabis | Reprodução/SENAD-PY O cenário da cannabis no Paraguai vem deixando de ser associado exclusivamente às extensas lavouras de maconha prensada para assumir contornos de um polo de processamento químico cada vez mais sofisticado. Operações conduzidas pela Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD) em 2025 em diferentes regiões do país revelam a consolidação de laboratórios clandestinos de cannabis, especializados na produção de concentrados como BHO e Ice, derivados obtidos por técnicas de extração de cannabis capazes de isolar canabinoides em altas concentrações, para atender o mercado brasileiro.
Essa mudança de perfil tem sido observada, sobretudo, nos departamentos de Amambay e Alto Paraná, onde estruturas de extração química de cannabis passaram a integrar a cadeia ilegal da cannabis. Diferentemente do cultivo tradicional, essas operações priorizam o processamento da planta para obtenção de resinas concentradas, reduzindo o volume físico do produto e aumentando significativamente seu valor de mercado, o que altera de forma relevante a dinâmica do comércio na região de fronteira.
Do prensado aos laboratórios: a mudança no perfil da produção ilegal
A lógica por trás desse modelo é clara: volumes menores de extrato concentrado possuem valor comercial superior à cannabis in natura, além de facilitarem o transporte e a ocultação. Essa característica torna os concentrados de cannabis especialmente atrativos em regiões de fronteira, onde a circulação transnacional de substâncias é historicamente intensa.
As estruturas identificadas pela SENAD demonstram um grau de organização que vai além do cultivo e da prensagem artesanal. Em muitos casos, os laboratórios de extração contam com equipamentos específicos, armazenamento de solventes e controle de temperatura, indicando um processo de industrialização da produção ilegal de cannabis.
Extração por solventes e a industrialização dos concentrados
A principal técnica identificada nesses centros de processamento é a extração por solvente hidrocarboneto, com o uso de gás butano. O método consiste na passagem do gás pela matéria vegetal da cannabis, dissolvendo os tricomas responsáveis por THC e CBD. O resultado é uma resina de cannabis altamente concentrada, que pode assumir diferentes texturas conforme o controle de temperatura, pressão e purga do solvente.

Mais de 500 botijões de butano foram apreendidos em
Karapã’i (Reprodução/SENAD)
As apreensões da SENAD em 2025 evidenciam a escala industrial dessas operações. Em uma única localidade, no município de Karapã’i, agentes encontraram mais de 500 botijões de gás butano, reforçando o caráter industrial da extração ilegal de cannabis e afastando essa produção de práticas artesanais.
Segurança, saúde pública e o impacto dos concentrados
Embora a produção de resinas concentradas de cannabis seja regulamentada em países onde a substância é legalizada, como Estados Unidos e Canadá, a realidade paraguaia apresenta riscos adicionais à saúde pública. Segundo a SENAD, a clandestinidade dos laboratórios ignora protocolos mínimos de segurança, especialmente no manuseio do butano, um gás altamente inflamável. A ausência de ventilação adequada cria ambientes propensos a explosões e acidentes graves.
Outro ponto de preocupação apresentada pela SENAD é a falta de purga eficiente dos solventes. Sem controle térmico e aplicação de vácuo, resíduos de hidrocarbonetos podem permanecer nos produtos finais, representando riscos ao sistema respiratório de quem consome esses concentrados ilegais de cannabis.
Rotas internacionais e a reconfiguração da repressão
Além da produção interna, as autoridades identificaram que o Paraguai passou a integrar rotas internacionais de concentrados de cannabis. A apreensão de 16 quilos de Wax no Aeroporto Internacional Silvio Pettirossi, com origem em Miami, indica que o país atua como produtor, receptor e ponto de trânsito de concentrados. Com valores que podem ultrapassar quatro mil dólares por quilo, o incentivo econômico da conversão da cannabis em resina tem alterado significativamente a dinâmica do mercado internacional.

Wax apreendido em aeroporto no Paraguai em 2025 (Reprodução/SENAD)
O desmantelamento de laboratórios de extração em 2025 sinaliza uma nova fase na repressão antidrogas da SENAD. O foco deixa de estar apenas nas áreas de cultivo de maconha e passa a incluir o controle de insumos químicos, gases industriais e equipamentos de extração, refletindo um mercado ilegal de cannabis mais técnico, compacto e financeiramente sofisticado.





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