Cannabis medicinal e a farra com dinheiro público
De desvios na pandemia a fraudes no INSS, empresas do setor de cannabis medicinal protagonizaram grandes escândalos envolvendo recursos públicos nos últimos cinco anos
Empresas do setor no protagonismo da corrupção | Reprodução/Redes Sociais Nos últimos cinco anos, o setor da cannabis medicinal, ainda em processo de regulamentação e expansão no Brasil, passou a aparecer, de forma recorrente, em investigações de grande repercussão envolvendo desvios de recursos públicos, contratos irregulares e suspeitas de lavagem de dinheiro. Embora o uso terapêutico da planta seja respaldado por decisões judiciais e normas sanitárias, casos específicos levantaram alertas sobre a atuação de empresas que orbitam esse mercado.
Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu durante a pandemia de Covid-19, quando a HempCare Pharma Representações Ltda., empresa com nome associado ao cânhamo medicinal, recebeu mais de R$ 48,7 milhões do Consórcio Nordeste para fornecer 300 respiradores pulmonares que nunca foram entregues. Em abril de 2025, o Tribunal de Contas da União (TCU) decidiu instaurar uma Tomada de Contas Especial exclusivamente contra a empresa, com o objetivo de apurar responsabilidades e buscar o ressarcimento aos cofres públicos.
Contrato emergencial, pagamento antecipado e prejuízo milionário
O contrato foi firmado em março de 2020, em meio ao colapso do sistema de saúde, e previa pagamento integral antecipado, prática considerada excepcional mesmo em situações emergenciais. Parte dos recursos utilizados, cerca de R$ 4,9 milhões, tinha origem federal, o que atraiu a competência do TCU.
As investigações apontaram que a HempCare havia sido aberta apenas nove meses antes da assinatura do contrato e não possuía histórico comprovado na fabricação ou fornecimento de respiradores. O caso motivou apurações em diferentes esferas, além de uma operação da Polícia Federal, que teve como um dos alvos o ex-secretário da Casa Civil da Bahia, Bruno Dauster, em 2022.

Cristiana Prestes, CEO da HempCare Pharma (Reprodução/Folha de S. Paulo)
Apesar das críticas técnicas ao processo de contratação, o TCU absolveu os gestores públicos envolvidos, entendendo que não ficou caracterizada culpa grave diante do contexto excepcional da pandemia. A responsabilização, por ora, segue restrita à empresa, que não se manifestou publicamente sobre o caso.
Novo foco: cannabis medicinal e suspeitas de esquema bilionário no INSS
Mais recentemente, outro episódio colocou o setor novamente sob os holofotes. A empresa World Cannabis, que atua no segmento de cannabis medicinal e possui operações internacionais, passou a ser investigada pela Polícia Federal e por uma CPMI que apura um suposto esquema bilionário de fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS.
Segundo as investigações, a empresa estaria ligada a movimentações financeiras consideradas atípicas, levantando suspeitas de possível lavagem de dinheiro e uso de estruturas empresariais para ocultação ou circulação de recursos de origem questionável. O caso envolve o lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, apontado como figura central no esquema.

Antonio Carlos Camilo Antunes, CEO da World Cannabis (Reprodução/Metrópoles)
Documentos e depoimentos também mencionam tentativas de articulação política e empresarial, com citações a nomes de grande projeção econômica e social. Entre eles, a empresária Roberta Luchsinger, herdeira milionária que aparece associada, segundo os investigadores, a vínculos empresariais e financeiros que passaram a ser analisados no contexto das apurações.
Investigações em curso e cautela jurídica
As autoridades ressaltam que não há condenações judiciais até o momento, e que os fatos ainda estão sob investigação. A inclusão de nomes e empresas ocorre a partir de indícios preliminares, relatórios financeiros e depoimentos, o que exige cautela na divulgação e interpretação das informações.
Especialistas em controle público e combate à corrupção destacam que os casos não devem ser usados para estigmatizar a cannabis medicinal ou seus pacientes, mas sim como alerta para a necessidade de maior transparência, fiscalização e compliance em um setor que cresce rapidamente e movimenta cifras milionárias.
Um setor em expansão sob vigilância
Os episódios envolvendo a HempCare e a World Cannabis mostram que, assim como em outros mercados emergentes, a falta de regulamentação clara e a corrida por oportunidades podem abrir espaço para irregularidades. Para investigadores, o desafio é separar o uso legítimo e terapêutico da cannabis de práticas empresariais que, em tese, podem ter se aproveitado de brechas institucionais e momentos de crise.
Enquanto as apurações seguem em andamento, os casos reforçam a importância de mecanismos de controle mais rígidos e de um debate público responsável, que não confunda políticas de saúde, direitos dos pacientes e eventuais desvios praticados por agentes econômicos específicos





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