Reino Unido amplia acesso à cannabis medicinal para saúde mental, com apoio a pacientes de baixa renda
Consultas gratuitas e descontos em prescrições vêm sendo oferecidos a britânicos com ansiedade e depressão que não responderam a tratamentos convencionais
Clínicas privadas passam a atender pessoas com depressão e ansiedade | Reprodução/Pexels Milhares de britânicos diagnosticados com transtornos como ansiedade, depressão e estresse pós-traumático estão passando a ter acesso legal à cannabis medicinal por meio de clínicas privadas no Reino Unido, inclusive com consultas gratuitas e descontos para pessoas que recebem benefícios sociais do governo.
Desde a legalização da cannabis para fins medicinais, em 2018, o país tem registrado uma expansão acelerada do setor, especialmente fora do sistema público de saúde. Dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação indicam que centenas de milhares de prescrições privadas foram emitidas nos últimos dois anos, muitas delas voltadas a condições de saúde mental que não costumam ser contempladas pelo sistema público (NHS).
Acesso ampliado fora do sistema público
Embora o Serviço Nacional de Saúde britânico mantenha critérios rigorosos para a prescrição de cannabis medicinal, limitando o uso a casos como epilepsia refratária, efeitos colaterais da quimioterapia e esclerose múltipla, clínicas privadas passaram a atender pacientes que não encontraram alívio em tratamentos convencionais, especialmente no campo da saúde mental.
Segundo dados de uma das maiores redes privadas do país, mais da metade de seus pacientes recebe cannabis medicinal para lidar com sintomas como ansiedade, depressão, transtornos de humor, TDAH e TEPT. Se esse padrão se repetir em outras clínicas, dezenas de milhares de pessoas já estariam utilizando a terapia como alternativa ou complemento aos medicamentos tradicionais.
Benefício social: inclusão de pacientes de baixa renda
Um dos pontos que mais chamam atenção no modelo britânico é o recorte social adotado por parte das clínicas. Pessoas afastadas do trabalho por questões de saúde mental e beneficiárias de programas como o Universal Credit ou o Personal Independence Payment têm acesso a consultas gratuitas e descontos que podem chegar a 20% no custo mensal da prescrição
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Uso medicinal da cannabis é autorizado no Reino Unido desde 2018 (Foto: Reprodução/AFP/Daniel Leal/Getty Images Embed)
Para defensores do modelo, essa política amplia o acesso a tratamentos que, de outra forma, seriam inviáveis financeiramente, sobretudo diante do alto custo de terapias psiquiátricas privadas.
Debate científico e regulatório
Especialistas em saúde mental seguem divididos. Enquanto parte da comunidade médica aponta riscos associados ao uso de produtos com alta concentração de THC, outros profissionais destacam que o uso medicinal ocorre sob prescrição médica, acompanhamento clínico e dentro da legalidade, diferentemente do consumo informal.
O crescimento rápido do setor também expôs lacunas regulatórias, já que produtos não licenciados podem ser prescritos por médicos especializados, desde que aprovados por órgãos reguladores como a Agência Reguladora de Medicamentos (MHRA) e fiscalizados pela Comissão de Qualidade do Cuidado (CQC).
Um modelo que chama atenção de outros países
O caso britânico reacende o debate internacional sobre acesso, regulação e justiça social na cannabis medicinal. Ao mesmo tempo em que levanta questionamentos sobre segurança, evidencia um ponto central: pacientes que falharam em tratamentos tradicionais estão buscando alternativas legais, com acompanhamento médico e respaldo institucional.
Para países como o Brasil, onde o acesso ainda é limitado, caro e altamente burocrático, a experiência do Reino Unido serve como referência tanto dos potenciais benefícios sociais quanto da necessidade de regulação clara, transparente e baseada em evidências científicas.





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