Unidade padrão de THC pode ajudar a reduzir riscos do uso de cannabis, aponta estudo
Pesquisa da Universidade de Bath propõe medir a potência da cannabis de forma semelhante às doses de álcool e indica limite semanal para diminuir dependência
Modelo busca orientar estratégias de saúde pública voltadas à redução de danos | Reprodução/Terrance Barksdale/Pexels Um novo estudo conduzido por pesquisadores da University of Bath, no Reino Unido, propõe a criação de uma unidade padrão para medir a potência da cannabis, nos moldes do que já existe para o consumo de álcool com as chamadas “doses padrão”. A iniciativa pode ajudar usuários a controlar melhor a quantidade consumida e permitir que profissionais de saúde identifiquem com mais precisão pessoas em risco de desenvolver transtorno por uso de cannabis.
A pesquisa ganha relevância em um cenário global de avanço das legislações que autorizam o uso medicinal e, em alguns países, também recreativo da cannabis. Segundo os autores, a padronização da medida de consumo pode contribuir para estratégias de saúde pública voltadas à redução de danos.
“À medida que a cannabis se torna cada vez mais disponível em mercados legais ao redor do mundo, é mais importante do que nunca ajudar os consumidores a fazer escolhas informadas sobre seu uso”, afirma Tom Freeman, diretor do grupo de Dependência e Saúde Mental da Universidade de Bath e autor sênior do estudo.
Potência importa e muito
Embora muitas pessoas utilizem cannabis de forma ocasional, parte dos usuários pode desenvolver o transtorno por uso de cannabis (CUD, na sigla em inglês), condição associada à dependência, prejuízos à saúde mental, aumento da tolerância, comportamentos de risco, alterações cognitivas e dificuldades financeiras e nos relacionamentos.
Atualmente, tanto usuários quanto profissionais de saúde enfrentam dificuldades para quantificar o consumo de cannabis. Isso ocorre porque, historicamente, a substância foi ilegal e produzida sem qualquer tipo de regulação, realidade que ainda persiste em grande parte do mundo.

A potência da cannabis, medida pela concentração de THC, tem aumentado nas últimas décadas (Foto: Reprodução/RDNE Stock Project/Pexels
Estudos anteriores já indicavam que frequência e quantidade de uso estão relacionadas ao risco de dependência. No entanto, esses critérios não consideram um fator central: a potência da cannabis, especialmente a concentração de tetrahidrocanabinol (THC).
“A potência da cannabis, medida pela porcentagem de THC, vem aumentando há décadas, e o uso de produtos mais potentes está associado a maiores riscos de desfechos negativos, incluindo o transtorno por uso de cannabis e problemas de saúde mental”, destacam os pesquisadores no artigo científico.
O que é uma “unidade padrão de THC”
Para chegar a esse modelo, os pesquisadores analisaram dados de 150 adolescentes e adultos usuários de cannabis em Londres, acompanhados por 12 meses no âmbito do estudo CannTeen, um projeto de quatro anos.
A equipe estimou a potência dos produtos consumidos em unidades padrão de THC. Os resultados mostram que nem todo cigarro de cannabis é igual. Um baseado de 0,45 grama de cannabis herbal de alta potência pode conter cerca de 12,78 unidades de THC, enquanto a mesma quantidade de uma cannabis mais fraca pode ter apenas 3,78 unidades.

Estudo acompanhou adolescentes e adultos usuários de cannabis por 12 meses no Reino Unido (Foto: Reprodução/RDNE Stock Project/Pexels
Com base nesses cálculos, o estudo concluiu que medir o consumo em unidades de THC é uma forma mais eficaz de avaliar o risco de desenvolver dependência do que apenas contar a frequência ou o peso do produto utilizado.
Limite semanal e redução de danos
Os autores sugerem que, para reduzir o risco de desenvolver transtorno por uso de cannabis, adultos não deveriam ultrapassar 8 unidades de THC por semana. Entre os participantes do estudo que excederam esse limite, 70% relataram sintomas compatíveis com dependência.
“O objetivo final das novas diretrizes é reduzir danos”, explica a autora principal Rachel Lees Thorne, pesquisadora em psicologia da Universidade de Bath. “O único nível totalmente seguro de uso de cannabis é não usar. Mas, para quem não quer ou não consegue parar, queremos facilitar escolhas que diminuam os riscos, como optar por produtos com menos THC ou reduzir a quantidade consumida.”
Recepção e ressalvas
Especialistas em saúde pública receberam bem a proposta, destacando que a padronização pode empoderar pacientes, orientar políticas públicas e melhorar a qualidade das pesquisas científicas.
A psiquiatra Marta Di Forti, do King's College London, faz uma ponderação: “A cannabis, ao contrário do álcool, não possui apenas um princípio ativo, mas mais de 144 canabinoides”. Ainda assim, ela avalia que as unidades de THC representam “um começo muito importante e necessário”.
Para o debate brasileiro sobre cannabis medicinal e políticas de drogas, o estudo reforça um ponto central: não basta falar em quantidade , é preciso considerar potência, contexto e informação de qualidade para reduzir riscos à saúde.





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